Contículo

Olhava sua imagem no espelho com um misto de medo e ansiedade. O silêncio foi quebrado pela campainha. Era ela, com certeza.
Tudo começara naquela tarde, na praia. Ele, sozinho, sentado, olhava para o mar, esperando respostas às suas indagações. Não era fácil ser um solitário a ver o pôr-do-sol junto a tantos casais. Ela, entediada com a superficialidade dos assuntos do namorado, reparou nas ondas que quebravam mansamente, nas crianças brincando, naquele rapaz tão absorto em pensamentos, que parecia não ter mais nada ao seu redor. Admirou-o calada, tentando conter a vontade de sentar-se ao seu lado e compartilhar daquele silêncio tão profundo, mas que dizia muito mais do que tudo que já ouvira. "É o que eu sempre quis.", pensou. "É o que eu nunca encontrei."
A cidade era pequena. Ela pensou que não seria difícil encontrá-lo. Foram ao supermercado, ela e o namorado, e, distraídos com latas de sardinha, nem repararam naquele garoto que os fitava no fim do corredor. "Meu Deus, como é linda!", ele pensava. E desejava ter estado com ela até há pouco, sentados na praia. Mesmo que fosse em silêncio, só para ouvir sua respiração...Encontrara suas respostas.
O verão terminou, cada um voltou para sua cidade. Ela pensava nele constantemente, sabendo que ele não a havia visto na praia. Ele sempre lembrava dela, com a certeza de que não o havia visto no mercado. Ambos acreditavam que nunca mais veriam um ao outro.
Um ano se passou, o namoro dela acabou, outro verão veio. Ele ia todos os dias ao mercado, na esperança de encontrá-la; ela ia todos os dias à praia tentar vê-lo. Um dia, ele desistiu. E foi novamente procurar suas respostas no mar. Sentou-se sozinho, nem percebeu quando ela se aproximou. Olharam-se, permaneceram em silêncio. No fim da tarde, trocaram telefones. Ele a chamou para jantar em sua casa, ela concordou. Aguardaram, ambos, como se fossem seus últimos minutos. Ela respirou fundo antes de apertar o botão: não era mais o silêncio que os ligava.

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