O piano

Pensou no ano de 1834. Naquele grande salão iluminado e na abundância de pessoas arrumadas para impressionar a sociedade. Nas senhoras gordas, com suas bochechas avermelhadas, arfando após a contra-dança ou observando, com olhares atentos, suas filhas trocarem olhares com os moços do baile. Alguns casais dançavam a animada música no meio do salão. Um grupo de moças, reunidas em um canto, soltava risadinhas e constantemente passavam os olhos por todo o recinto a procura de seus amados ou de novos assuntos e motivos para chacotas. Numa sacada, dois moços muito parecidos conversavam. Era provável que fossem irmãos e pareciam não estar muito interessados na festa. Duas pequenas meninas corriam pelo salão balançando seus cachos louros e seus vestidinhos engomados. Um senhor de idade bocejava, envolto em lembranças dos seus "tempos de baile". Um homem com um grande bigode preto, que dançava com uma mulher de cabelos castanhos e grandes e chamativos olhos verdes parecia tão interessado na dança quanto estaria um lobo frente a um pé de couve. A cadeira com espaldar alto, feita em madeira escura, parecia não agradar ao velho senhor que bocejara. Ele se remexia em seu assento, procurando uma posição que agradasse suas velhas costas.


O grande lustre pendurado bem ao centro da sala era magnífico, mas passava despercebido pela maior parte dos convidados. O lustre conferia uma beleza cristalina à decoração, mas somente olhares atentos - ou olhares entediados da festa, que passassem a procurar recantos inexplorados do lugar - perceberiam sua existência. As grandes janelas de vidro, cujas cortinas bordô haviam sido afastadas, revelaram uma noite estrelada, mas sem lua. As árvores balançavam levemente lá fora, embaladas pela mesma brisa que por vezes inundava o salão, refrescando os convivas em seus abafados trajes em estilo europeu. Algumas mulheres, procurando acabar com o calor da bela noite, abanavam-se com seus leques, chamando a atenção para seus grandes decotes.


A luz amarelada do salão deixava as pessoas mais belas. Realçava as peles embranquecidas pelo pó de arroz das mulheres. Destacava os olhos fortes e firmes dos homens. Fazia todos os movimentos parecerem leves e graciosos. Conferia ao salão uma atmosfera de memorabilidade.


Havia um leve cheiro de comida misturado com o perfume das flores do jardim. A proximidade da primavera liberava uma diversidade de odores, mas o delicado jasmim branco, de toque suave e perfume penetrante, sobressaía-se.


O dono da casa anuncia sua jovem filha e a dirige até o piano. Todos se sentam para apreciar a música.


Ah, um noturno... Música triste e sóbria, que invade a alma e traz a tona os sentimentos mais profundos . Toca os ouvidos como um lamento sublime naquela noite de lua negra. Expõe o lado sombrio da jovem pianista, que parece tocar com o coração enquanto passa os longos e delicados dedos pelas teclas.


Alguém toca em seu ombro e faz com que ele saia do breve transe em que se encontra. Olhos fixados na grande taça de cristal em cima da mesa, é preciso que pisque ainda algumas vezes até perceber que é o garçom que lhe oferece mais champagne. Bebe um grande gole e conclui que prefere a beleza fantasiosa dos seus salões do século XIX ao requinte palpável em que se encontra. Sente-se como um peixe agonizando na beira do mar. Ah, os noturnos... sempre aguçam sua imaginação, que tanto se parece com memória. Toma mais um gole e volta a pensar no salão do baile. E o descreve, minuciosamente, para si mesmo.

Comentários

Unknown disse…
Eu não sei nem o q dizer...lindo,lindo.
Unknown disse…
Lembrei dos noturnos que minha mãe tocava.
Rafael Abreu: disse…
muito bom o texto!
só umas crases faltando e um tropeço no início...
mas legal mesmo!
(vi seu blog numa comunidade do orkut, quando puder, passa no meu:
www.abreu07.blogspot.com)
Nanda disse…
Uou, no início achei que ia aparecer um Brás Cubas ou algum velho conhecido pelo baile! ^^

Grande Ilana...
=*

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