A espera
Esperava pelas flores. Esperava os bombons e os cartões. Esperava pelas palavras delicadas e os gestos sutis. Simplesmente esperava.
Fechada em seu pequeno mundo verde água, aconchegada em um macio edredon e abraçada àquele velho urso que ganhara da avó, lembrava de todas as vezes em que já se vira naquela situação: olhava, com os olhos banhados em lágrimas, para o nada; imaginava como tudo poderia ser.
Estava cansada de receber conselhos e consolos. Ao mesmo tempo, precisava deles. Estava cansada de precisar de estímulos externos para não cair na tentação de se fechar definitivamente em seu mundinho. "Mas, ah, como seria bom não mais que se preocupar com o resto!" Ali dentro era tudo tão quente, macio e agradável...Sem as asperezas e precipícios gelados lá de fora. Não ter mais que arriscar-se, não ter mais que temer e nem sentir aquele frio na barriga. Tudo lá fora era frio. Aqueles conselhos das pessoas geladas, aqueles consolos que eram facas pontiagudas, aquelas visões-baldes-de-água-fria. Ele. Ele era o mais frio de tudo.
Já havia se machucado outras vezes. Mas dessa fora diferente. Ela realmente havia entrado fundo, apostara tudo, acreditara já ter experiência o suficiente para distinguir o real do ilusório. Tomara confiança. Errara. E odiava, mais do que tudo, errar.
Sofria ainda mais porque quisera aquilo tudo. E, no fundo, ainda queria. Queria arriscar-se, entregar-se, queria gastar seu tempo inutilmente com coisas com as quais não deveria gastá-lo. Queria reclamar, rir, chorar, queria fazer declarações, se entregar. Queria brigar, fazer dramalhão mexicano, terminar tudo, cortar o cabelo e sair com as amigas. Sentia-se no direito de viver tudo aquilo. Afinal, não era isso que alguém da sua idade vivia? Ela só não lembrava que era especial.
Esquecia-se de todas as garotas que passavam pela mesma situação que ela todos os dias. Ela era especial, sim. Mas era especial como todas as mulheres são.
Aquele não era um dia comum. Aquele era o dia em que ela ia levantar-se, afastar o edredon, arrumar a cama e colocar seu velho urso confortavelmente sentado ali. Aquele era o dia e que ela ia olhar seus belos olhos no espelho e se sentir uma mulher. Aquele era o dia em que ela ia andar na rua e sorrir para o mundo, mas sorrir sem desejar nada em troca. Aquele era o dia em que ela ia tratar cada pessoa como especial, como todas as pessoas o são. E enxergar que, no fundo, todos esperavam tanto quanto ela. Afinal, todos sempre esperam.
Comentários
qualquer coisa to aqui aeuhaeuhaeuaeh
Tô ótima! ;D
acho que não preciso dizer nada
a nana já diz tudo
E continuo, depois de anos..a me impressionar com tudo que escreves..
Desse jeito tá pra nascer alguém que ganhe da nana em alguma causa! hehe
eu é que nunca vou querer enfrentar essa guria num tribunal!!! haha
Vá escrever bonito assim lá p bandas do sul!!!!